
A indicação de uma traqueostomia em crianças ainda costuma ser recebida com apreensão pelas famílias. A associação imediata com gravidade e permanência, no entanto, nem sempre corresponde à realidade do tratamento. Em muitos casos, o procedimento é adotado como medida de proteção temporária para garantir que a criança mantenha a respiração adequada enquanto enfrenta condições que comprometem as vias aéreas.
A intervenção é necessária quando o ar não consegue circular de forma eficiente pelos caminhos naturais. Isso pode ocorrer por alterações presentes desde o nascimento, como estruturas da laringe que não oferecem sustentação suficiente ou estreitamentos que dificultam a passagem do ar. Também pode ser consequência de quadros adquiridos, como infecções respiratórias importantes ou períodos de ventilação mecânica.
Segundo a cirurgiã torácica do Hospital da Criança de Brasília José Alencar, Maria Alice Cardozo, a intubação pode deixar sequelas que tornam o procedimento inevitável. “Há situações em que a ventilação, mesmo por pouco tempo, provoca lesões que impedem a respiração segura. Nesses cenários, a traqueostomia passa a ser um recurso de proteção”, explica.
Após a cirurgia, o cotidiano exige preparo. Entre as situações que mais preocupam está o bloqueio da cânula, dispositivo que mantém a via aérea aberta. Por isso, além do suporte emergencial, os responsáveis recebem treinamento para agir rapidamente. “Os cuidadores aprendem a aspirar secreções e a reposicionar o dispositivo em caso de deslocamento. Isso faz diferença em momentos críticos”, afirma a médica.
Ela destaca que a forma como a indicação é comunicada interfere diretamente na adaptação emocional das famílias. “Quando mostramos que se trata de uma etapa do tratamento, e não de uma condição permanente, a percepção muda. A traqueostomia funciona como uma transição”, observa.
O cuidado com essas crianças envolve uma atuação integrada de diferentes profissionais. Equipes de enfermagem acompanham a manutenção do dispositivo, fisioterapeutas auxiliam na função respiratória e fonoaudiólogos trabalham para preservar habilidades como alimentação e comunicação. “O acompanhamento fonoaudiológico é essencial porque muitas famílias temem que a criança perca a capacidade de falar. Com suporte adequado, isso pode ser evitado”, ressalta Cardozo.
O suporte emocional também é considerado indispensável. “A rotina de cuidados impacta toda a dinâmica familiar, e o acompanhamento psicológico ajuda nesse processo de adaptação”, acrescenta.
Mesmo com algumas restrições específicas — como evitar atividades aquáticas, a presença da cânula não impede uma infância ativa. Crianças sem limitações motoras ou neurológicas podem brincar e participar de atividades do dia a dia.
Com a evolução do quadro clínico, a retirada do dispositivo se torna possível. Antes disso, exames avaliam se a respiração ocorre sem apoio. Após a remoção, o organismo costuma fechar naturalmente a abertura. “Na maioria das vezes, não é necessário nenhum tipo de sutura. O próprio corpo realiza o fechamento”, esclarece.
Celebrado em 18 de fevereiro, o Dia Nacional da Criança Traqueostomizada busca ampliar a compreensão sobre o tema e estimular a troca de experiências. “A data é importante para mostrar que esse processo pode ser adaptado e que o cuidado adequado melhora significativamente a qualidade de vida dessas crianças”, conclui a cirurgiã.
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